O Giro do Boi esteve presente em Goiânia (GO) durante o curso TIP Brasil, que reuniu mais de mil pecuaristas para debater o avanço da Terminação Intensiva a Pasto (TIP).
O sistema registrou um crescimento avassalador de mais de 300% em apenas quatro anos, atingindo a marca de 10 milhões de cabeças terminadas em TIP por ano. O avanço foi impulsionado pela chegada de usinas de etanol de milho, que baratearam o acesso ao coproduto DDG, permitindo que as fazendas atinjam a produção de até 120 arrobas por hectare em três giros anuais.
Em entrevista ao repórter Marco Ribeiro, o pesquisador e professor da APTA Colina, Gustavo Rezende, trouxe uma análise cirúrgica sobre a necessidade de modernização estrutural das fazendas. Ele deu total ênfase à principal manchete do dia, disparando um alerta contundente para quem ainda insiste em métodos antigos e ineficientes de produção: “A terra não vai acabar, ela simplesmente vai trocar de dono”.
Confira:
O gargalo da logística: modernização estrutural obrigatória
De acordo com Gustavo Rezende, o produtor que deseja adotar as tecnologias de ponta da nova pecuária intensiva precisa, antes de tudo, revolucionar a logística de distribuição de trato de sua fazenda. O modelo tradicional de propriedade rural tornou-se um impeditivo para o lucro.
O modelo antigo de fazenda, que posiciona cochos de sal cobertos no meio das pastagens ou de sistemas rotacionados, é totalmente inviável para a engorda moderna. No período da seca ou na transição de águas, o transporte manual de sacarias de ração até o centro do piquete gera atoleiros, ineficiência operacional e esgota a mão de obra no braço.
A pecuária intensiva de alta rentabilidade exige que os cochos sejam instalados na beira dos corredores de tráfego. Essa mudança permite o trato 100% automatizado por meio de tratores e vagões misturadores, sem a necessidade de a máquina entrar no pasto. Conforme o alerta do especialista, a propriedade terá uma boa logística implementada pelo atual pecuarista, ou por quem comprá-la após a sua falência operacional.
A Recria Intensiva (RIP) como o “miolo” do giro rápido
Ao analisar as fases do ciclo de produção de carne, o pesquisador apontou que a recria é a única etapa biologicamente flexível e com real poder de manipulação e aceleração por parte do produtor.
A fase de cria possui travas biológicas rígidas (10 meses de gestação e pelo menos 7 meses de aleitamento), consumindo cerca de 18 meses fixos. Já a engorda terminal (TIP ou confinamento fechado) já é padronizada e curta, durando de 3 a 4 meses.
No modelo tradicional, a recria chega a se estender por longos 2 anos. Com a introdução da RIP (Recria Intensiva a Pasto), esse período é compactado para 7 a 8 meses. Reduzir essa fase em mais de 50% é o passo mais impactante para acelerar o fluxo de caixa do negócio.
A matemática da terra: lucro por hectare versus por cabeça
O crescimento da atividade hoje precisa ser verticalizado (como em um prédio), uma vez que a expansão horizontal — compra de novas terras ou abertura de áreas nativas — tornou-se cara e inviável.
Avaliar a viabilidade econômica do cocho calculando apenas a margem líquida por animal isolado é um erro que assusta os produtores devido ao alto desembolso imediato com a ração.
A verdadeira unidade produtiva da fazenda é o solo. Na recria intensiva, embora o ganho de peso individual possa se assemelhar ao do modelo convencional, o pecuarista gasta metade do tempo e coloca o dobro de animais na mesma área. Ao elevar a taxa de lotação por meio de manejo e nutrição no cocho, o resultado financeiro líquido por hectare/ano salta de três a quatro vezes.
Acompanhe todas as atualizações do site do Giro do Boi! Clique aqui e siga o Giro do Boi pela plataforma Google News. Ela te avisa quando tiver um conteúdo novo no portal. Acesse lá e fique sempre atualizado sobre tudo que você precisa saber sobre pecuária de corte!
O conceito da RIP: ganhar estrutura sem engordar precoce
O manejo nutricional da recria intensiva exige equilíbrio técnico para evitar prejuízos na indústria frigorífica. O objetivo desta fase é fazer o garrote desenvolver estrutura magra (músculos e ossos), deixando a deposição de gordura subcutânea estritamente para os 90 a 120 dias finais de confinamento ou TIP.
Fornecer energia em excesso (como milho ou DDG desbalanceados) para um animal leve, de 250 kg a 300 kg, acelera o ganho de peso, mas antecipa a curva de deposição de gordura.
Esse gado cessa o ganho de peso antes do momento ideal e acaba sendo enviado para o gancho muito mais leve do que o potencial da raça, ou com um excesso prejudicial de gordura na carcaça — um descompasso que a indústria frigorífica brasileira já começa a enfrentar e a penalizar financeiramente.
O sequestro de animais na transição seca-águas
Como ferramenta de preservação de pastagens, Gustavo Rezende destacou o “sequestro” de lotes entre os meses de agosto e novembro como uma das práticas que mais devem crescer na pecuária nos próximos anos.
- Efeito poupa-pasto: o manejo consiste em fechar os animais de recria em currais ou piquetes de sequestro por 30 a 60 dias durante a transição climática, fornecendo volumoso e concentrado no cocho.
- Proteção do rebrote: ao retirar as bocas dos pastos no primeiro sopro de chuva, o produtor elimina o superpastejo inicial (o boi comendo o broto jovem do capim). Isso permite que a pastagem rebrote com força total, garantindo um vigor de forragem espetacular para o período das águas e ganhos de peso muito superiores no retorno dos lotes ao pasto.
A intensificação da recria não é um degrau intransponível, é uma rampa de aceleração: exige planejamento, readequação de corredores e investimentos em maquinários para trato rápido, mas conduz a fazenda para um patamar de alta lucratividade. Não encare a recria como uma fase de mera espera, mas sim como a pista de corrida para o boi que deixa dinheiro dentro do caixa da sua propriedade.
News Giro do Boi no Zap!
Quer receber o que foi destaque no Giro do Boi direto no seu WhatsApp? Clique aqui e entre na comunidade News do Giro do Boi 2.


