O aumento do endividamento no campo tem levado produtores rurais a buscar alternativas para reorganizar a vida financeira e evitar o avanço das dívidas. Em entrevista ao Giro do Boi, o advogado especialista em direito rural Rafael Armênio, afirmou que a renegociação com as instituições financeiras é um direito garantido pela legislação e deve ser buscada antes que a situação evolua para processos judiciais.
A declaração ocorre em um momento de aumento das dificuldades econômicas enfrentadas pelo setor. Apenas no primeiro trimestre de 2026, 539 empresas do agronegócio entraram em recuperação judicial no Brasil, alta de 10% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Confira:
Renegociação deve ser feita antes da cobrança
De acordo com Armênio, o produtor deve procurar o banco assim que identificar dificuldades para honrar os compromissos financeiros. “A gente sempre vai buscar o banco extrajudicialmente para tentar, junto ao banco, esse alongamento, porque é direito do produtor e não favor da instituição financeira”, afirmou.
Segundo o especialista, antecipar a negociação amplia as possibilidades de acordo e reduz o risco de judicialização. Caso a instituição financeira negue a renegociação, o produtor pode recorrer à Justiça.
Juros elevados e restrição de crédito pressionam o campo
O advogado atribui parte do endividamento à combinação de fatores econômicos e climáticos registrados nos últimos anos.
Entre eles estão a redução da oferta de crédito rural, juros elevados, eventos climáticos extremos e a contratação de produtos financeiros adicionais vinculados aos empréstimos.
Segundo Armênio, há casos em que contratos apresentam taxas dentro do limite legal, mas incluem serviços agregados, como seguros, consórcios e títulos de capitalização.
“Tem contratos que a gente vê com taxa dentro da legalidade, que é 12% ao ano, mas embutidas com vendas casadas de seguro, consórcio, capitalização. Se somar isso chega de 20%”, explicou.
Ele afirma que muitos produtores aceitam essas condições por dependerem do financiamento para manter a atividade.
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Especialista alerta para garantias oferecidas aos bancos
Outro ponto de atenção, segundo Armênio, é a exigência de alienação fiduciária das propriedades rurais durante renegociações.
O advogado orienta cautela antes de aceitar esse tipo de garantia, já que, em caso de inadimplência, o banco pode consolidar a posse do imóvel em um processo administrativo.
Alongamento das dívidas pode ser alternativa
Armênio destacou que a recuperação judicial não é a única saída para o produtor endividado. Segundo ele, a legislação brasileira prevê mecanismos específicos para o alongamento e a prorrogação das dívidas rurais.
O advogado citou o caso de um pecuarista que possuía um passivo de aproximadamente R$ 87 milhões. Após a adoção desse mecanismo, o produtor obteve quatro anos de carência e prazo adicional de 20 anos para quitar a dívida.
“Não é favor do banco, é direito do produtor rural que teve sua quebra de safra demonstrada por meio de laudos”, afirmou.
Produtor deve buscar orientação especializada
O especialista recomenda que os produtores mantenham acompanhamento frequente da situação financeira da propriedade, com apoio de advogados e contadores.
Ele também reforçou que a legislação oferece instrumentos para preservar a atividade rural e garantir a continuidade da produção. “Produtores rurais não podem desistir porque são vocês que movimentam o país”, concluiu.
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