‘Não adianta a vaca passar fome para produzir bezerro bom’, aponta especialista

Foto: Reprodução/Giro do Boi.

O Giro do Boi desta quinta-feira (28) debateu as decisões mais estratégicas da pecuária de cria: o manejo de desmama e o score corporal das matrizes. Diante do início da seca e do alerta de estiagem severa provocada pelo El Niño, o programa recebeu o engenheiro agrônomo Guilherme Silveira, diretor da Silveira Consultoria, empresa que celebra 40 anos de história na identificação do “boi que deixa dinheiro”.

O especialista deu total ênfase à manchete do dia, combatendo uma cultura antiga e equivocada de que a fase de cria deve ocupar as piores áreas e pastos degradados da fazenda. Guilherme foi categórico: “Não adianta a vaca passar fome para produzir bezerro bom”.

Para que a atividade de cria seja altamente rentável, as matrizes exigem pastos de qualidade e planejamento nutricional rigoroso, pois a eficiência e o peso do bezerro na desmama são determinados diretamente pela saúde e pela condição corporal da mãe.

Confira:

O bezerro do cedo e a meta do peso maduro

A régua de eficiência do peso ao desmame é ditada pelo relógio da estação de parição, e a vaca precisa de suporte nutricional para cumprir metas zootécnicas ousadas.

  • A meta absoluta: uma fazenda de cria eficiente deve perseguir o objetivo de fazer a vaca desmamar 50% do seu próprio peso vivo. Se a matriz pesa 500 kg, a meta é entregar um bezerro de desmama robusto, pesando entre 225 kg e 250 kg.
  • O bezerro do cedo (“tomatão”): é o animal ideal, nascido entre agosto e setembro (final da seca e início das águas). Nos primeiros 60 dias, sua exigência de leite é baixa. Quando atinge o pico de demanda mamária, a vaca já tem acesso a capim verde de alta qualidade, maximizando a lactação. O resultado é um animal desmamado pesado e estruturado.
  • O prejuízo do bezerro tarde: animais nascidos em janeiro ou fevereiro sofrem o impacto reverso. O pico de demanda ocorre quando as pastagens amarelam e perdem proteína. A vaca reduz a produção de leite e o filhote é desmamado leve (130 kg a 150 kg). Cada mês de atraso no nascimento representa uma perda de 20 kg a 30 kg no peso de desmame.

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Técnicas de desmama: minimizando o impacto e o estresse

A desmama é um manejo delicado que gera grande estresse, berros e perda de desempenho tanto para a vaca quanto para a cria, que perde o leite e os cuidados maternos. Guilherme Silveira apresentou duas soluções cirúrgicas para o produtor:

Desmama racional lado a lado (7 a 8 meses)

Indicada para o ciclo tradicional, essa técnica baseia-se nos preceitos de bem-estar animal.

  • O manejo: mães e filhotes são apartados em piquetes vizinhos, separados apenas por uma cerca de boa qualidade (cinco fios de arame liso ou cordoalha).
  • A dinâmica: os animais mantêm o contato visual, a vocalização e o reconhecimento olfativo. O processo de quebra de vínculo ocorre de forma gradual e, em apenas três dias, o filhote se desliga da mãe e foca no pasto sem sofrer estresse elevado.
  • O aliado do creep-feeding: o uso prévio do cocho privativo acostuma o animal com a ração e com a disputa de espaço, eliminando o impacto da transição alimentar brusca.

Desmama precoce abrupta (90 a 120 dias)

Ferramenta estratégica de correção de rumo para salvar o score corporal da vaca em situações de pasto rapado na estiagem.

  • Alívio da matriz: a lactação consome 50% de toda a energia que a vaca ingere. Ao retirar o filhote aos 3 ou 4 meses de forma abrupta, desliga-se a “bomba metabólica” da produção de leite, poupando a carcaça da mãe para o feto que está na barriga e para o próximo ciclo de IATF.
  • O “sequestro” do bezerro: como o animal de 90 dias ainda não é um ruminante pleno, ele deve ser confinado imediatamente (“sequestrado”) com ração aditivada de alta tecnologia (rica em proteínas, probióticos e minerais) para suprir o leite e evitar o risco de estagnar o crescimento.

O planejamento da seca: ajuste de lotação e alimento extra

Para manter a fazenda lucrando durante a seca do El Niño, o produtor não pode permitir que a taxa de lotação e o Ganho de Peso Médio Diário (GMD) desabem.

É obrigatório mudar os planos de manejo das pastagens, realizando ajustes na carga animal por hectare e garantindo o fornecimento de volumosos extras de entressafra, como feno, silagem de milho, sorgo ou capim Capiaçu.

O manejo de desmama deve ser acompanhado rigorosamente pelo protocolo sanitário, sendo indispensável a aplicação de uma dose de vermífugo no pós-desmame para proteger a saúde intestinal e garantir a eficiência alimentar dos bezerros.

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