Bezerros natimortos seguem como desafio nas fazendas de cria: o que o pecuarista precisa saber?

Foto: Reprodução/Giro do Boi.

A alta taxa de bezerros natimortos e a mortalidade neonatal consiste em um dos gargalos mais severos da pecuária nacional. Estima-se que as perdas possam variar de 8% a 18% até o desmame, sendo que 50% dessas mortes ocorrem nos primeiros cinco dias de vida.

Em entrevista ao Giro do Boi, o professor Enrico Ortolani, titular da USP e autoridade em clínica de ruminantes, deixou o alerta: a maior parte dessas perdas acontece “dentro da porteira” e pode ser evitada com manejo e nutrição adequados.

Confira:

O desafio crítico das fêmeas superprecoces

A aceleração do ciclo pecuário, com fêmeas sendo emprenhadas cada vez mais jovens, trouxe um desafio biológico extra para o controle de bezerros natimortos.

Como a novilha ainda está em crescimento, há uma disputa por nutrientes entre o corpo da mãe e o feto. Se a nutrição for inadequada nos últimos 4 meses de gestação (fase em que ocorre 70% do crescimento do bezerro), o neonato nasce fraco e sem vigor.

Fêmeas superprecoces possuem o coxal menos desenvolvido. O cruzamento com touros que imprimem muito peso ao nascimento resulta em partos difíceis e falta de oxigenação do bezerro.

Para novilhas, a recomendação técnica é utilizar touros com DEP (Diferença Esperada na Progênie) para baixo peso ao nascimento ou sêmen sexado de fêmea, que nasce de 2 a 3 kg mais leve.

Sanidade: as vilãs ocultas da reprodução

Doenças infecciosas são responsáveis por uma fatia considerável de abortamentos e bezerros que nascem sem força de sobrevivência.

  • Brucelose e Leptospirose: a Brucelose causa abortos e bezerros raquíticos. Já a Leptospirose é frequentemente transmitida via urina das vacas em águas paradas (açudes). O professor Ortolani é enfático: beber água em açude é um risco sanitário altíssimo.
  • Neosporose (risco dos cães): cães jovens que defecam próximo a pastos e bebedouros espalham o agente causador de abortamentos. Recomenda-se manter cães de fazenda confinados até completarem um ano.

Protocolo de reanimação e primeiros socorros

Quando ocorre um parto difícil, a ação imediata do campeiro pode salvar o animal de se tornar mais uma estatística de bezerros natimortos.

  • Posição de quilha: apoie o bezerro sobre o peito (esterno) com as patas dobradas, nunca de lado. Isso facilita a expansão dos pulmões e a respiração.
  • Estímulo do espirro: limpar as narinas e estimulá-las com uma palha ou graveto fino provoca o reflexo do espirro, ajudando a expelir líquidos e iniciar a respiração.
  • Colostro e energia: bezerros que sofrem no parto gastam toda a reserva de energia. O fornecimento de colostro nas primeiras 6 horas é inegociável para garantir a imunidade.

Para reduzir a mortalidade neonatal, o planejamento logístico da fazenda de cria deve ser revisado em 2026.

Ação Recomendada Benefício Direto
Bebedouros Artificiais Elimina o ciclo de transmissão de doenças por águas paradas
Piquete Maternidade Facilita a observação e intervenção rápida em partos de novilhas
Suplementação com Ureia Melhora o vigor do bezerro ao nascimento se ofertada no terço final da gestação

A morte de bezerros é o maior ralo de dinheiro na cria. Investir em genética de parto fácil para novilhas, vacinação rigorosa e água de qualidade nos bebedouros são os passos fundamentais para que o pecuarista pare de “perder a safra” logo no nascimento.

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